Disciplinas sobre literatura popular nordestina chegam a cursos de Letras em São Paulo, Rio e Minas Gerais, num movimento que mistura preservação cultural e revisão do cânone literário brasileiro.
Por décadas, a literatura de cordel foi tratada nas universidades brasileiras como curiosidade folclórica, mencionada em rodapé nos manuais de literatura. Nos últimos três anos, algo mudou. Cursos de Letras em pelo menos doze universidades do Sudeste passaram a oferecer disciplinas dedicadas ao gênero — algumas obrigatórias, a maioria ainda eletiva, mas todas com listas de espera.
Na USP, a disciplina "Poética do Cordel e Culturas Populares" foi criada em 2023 e já passou por duas turmas com mais de 60 alunos cada. Na UFRJ, o professor Armando Leite lançou em 2024 um seminário que combina cordel com estudos pós-coloniais. Em Belo Horizonte, a UFMG incluiu o gênero no currículo do bacharelado em Letras pela primeira vez em sua história.
Professores e pesquisadores ouvidos pela Revista Brasil apontam uma confluência de fatores. A revisão do cânone literário, impulsionada pelos debates sobre diversidade cultural, abriu espaço para formas de expressão historicamente marginalizadas. Ao mesmo tempo, a digitalização do cordel — com folhetos sendo vendidos e distribuídos online — aproximou o gênero de públicos mais jovens.
"O cordel nunca foi apenas literatura. É história oral, é registro de eventos, é crítica política em versos. Quando você lê um folheto de Patativa do Assaré, está lendo uma visão de mundo que as universidades ignoraram por muito tempo", diz a professora Mônica Rezende, da UFMG.
Nem todos os cordelistas recebem o interesse acadêmico com entusiasmo irrestrito. Alguns temem que a entrada nas universidades resulte em apropriação sem retorno para as comunidades que criaram e mantiveram o gênero.
"Estudar é bom. Mas a gente precisa que as universidades também comprem os folhetos, contratem os poetas para falar, levem o cordel para dentro das salas de aula de verdade", diz Zé do Bode, cordelista de Caruaru que já foi convidado para falar em três universidades paulistas.
A tensão entre preservação e institucionalização é um tema recorrente nos debates sobre culturas populares. No caso do cordel, a questão ganha contornos específicos porque o gênero tem uma tradição de autoria individual forte — cada folheto é assinado, cada poeta tem seu estilo reconhecível.
O cordel brasileiro foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial pelo IPHAN em 2018. Desde então, o número de cordelistas registrados cresceu 40%, segundo a Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Muitos são jovens de regiões fora do Nordeste, o que indica que o gênero está se expandindo geograficamente.
Se esse crescimento vai se sustentar, e se as universidades vão contribuir para ele de forma genuína, são perguntas que só o tempo responderá. Por enquanto, as listas de espera nas disciplinas sugerem que há interesse — e isso, para quem acompanha o gênero há décadas, já é uma novidade.