Levantamento nacional ouviu 4.200 pessoas e mapeou os tipos mais comuns de assédio, desinformação e golpes online. Mulheres e jovens são os grupos mais afetados.
Seis em cada dez brasileiros com acesso à internet já foram vítimas de alguma forma de violência digital. O dado é de uma pesquisa nacional conduzida pelo Instituto DataBrasil em parceria com a Universidade Federal de São Paulo, divulgada nesta quarta-feira.
O levantamento ouviu 4.200 pessoas em todas as regiões do país entre março e maio de 2025. Os tipos de violência mais relatados foram: golpes financeiros (38%), desinformação direcionada (29%), assédio e ameaças online (24%) e exposição não consentida de imagens íntimas (11%).
A pesquisa mostra que mulheres são desproporcionalmente afetadas pelo assédio online: 41% das entrevistadas relataram ter sofrido ameaças ou comentários abusivos nas redes sociais, contra 18% dos homens. Já os golpes financeiros atingem mais os homens acima de 50 anos, grupo que combina maior poder aquisitivo com menor familiaridade com as táticas dos golpistas.
Entre os jovens de 18 a 24 anos, a violência mais comum é a desinformação direcionada — perfis falsos criados para difamar ou perseguir uma pessoa específica.
Apenas 23% das vítimas registraram boletim de ocorrência. Os motivos mais citados para não denunciar foram: "não acredito que vai resolver" (54%), "não sei como fazer" (31%) e "medo de represálias" (22%).
"Há um problema estrutural de subnotificação que dificulta a resposta do Estado", diz a pesquisadora Débora Fonseca, coordenadora do estudo. "As delegacias especializadas em crimes digitais existem em apenas 14 estados e, mesmo onde existem, a capacidade de investigação é limitada."
O Brasil tem o Marco Civil da Internet e a Lei Carolina Dieckmann, mas especialistas apontam que a legislação não acompanhou a velocidade das novas formas de violência. A proposta de regulamentação das redes sociais, em tramitação no Congresso, é vista por parte dos especialistas como um passo importante, mas insuficiente.
"Precisamos de mais do que leis. Precisamos de educação digital, de plataformas que respondam com rapidez e de um sistema de justiça que leve esses crimes a sério", afirma Fonseca.